233.O dia em que o "teólogo ateu" visitou Jânio Quadros | Fábio Campana

233.O dia em que o “teólogo ateu” visitou Jânio Quadros

Agosto de 1977.

Vou visitar Jânio Quadros em sua casa no Guarujá e levo comigo Carlos Heitor Cony, que queria conhecer pessoalmente o ex-presidente. Estabeleceu-se entre os dois imediata empatia.

Ambos, como se sabe, são esplêndidos causeurs. Naquela tarde, estavam excepcionalmente inspirados.
Num determinado momento, Cony passou a expor uma erudita exegese sobre a evolução do que ele chamava de sua “crise espiritual” – que teve início quando ele era aluno aplicado do Seminário São José, no Rio, e só findou quando o jovem crente e temente de ontem se transformou no irremediável agnóstico de hoje.

Foi um longo desfilar de sabedoria sacra e profana e um extenso perfil dos mais notáveis doutores da Igreja – de São Pedro a Leon Bloy e Maritain, passando por São Gregório, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho – e mais Leão XIII, Pio IX e João XXIII.

Atento, como que sorvendo as palavras de Cony com o mesmo enlevo com que bebia o seu uísque, Jânio escutava sem apartear as eruditas considerações de Cony.

Ao final, disse :

– É a primeira vez que converso com um teólogo tão douto e tão ateu!

Excerto do livro Diário do último dinossauro, de Joel Silveira.


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