222. Drummond, o vizinho que não entrevistei | Fábio Campana

222. Drummond, o vizinho que não entrevistei

Durante mais de trinta anos, fui vizinho do poeta Carlos Drummond de Andrade, ele lá na rua Conselheiro Lafayette e eu cá, na Francisco Sá – em termos de metragem, menos de um quilômetro nos separando. Mas pouco nos encontrávamos, embora quase diariamente, no final da tarde, eu visse da minha janela, no sexto andar, o poeta passar na calçada defronte, nesse traje informal que a zona sul do Rio permite e até exige.

Vertical, rígido, sem alarme, cheio de graça e ironia, um tanto cético e um pouco moleque, discreto e disciplinado – assim foi Carlos Drummond de Andrade.

Otto Lara Resende me dizia :

– Se há a imagem de um ser inescalável, distante, fechado, essa imagem é mentirosa quando se refere ao Carlos Drummond de Andrade que se conheceu de perto.

Uma confissão de Drummond a Fernando Sabino :

– Não sou capaz de fazer poema a frio, como se resolve um problema de matemática. Não sou poeta no sentido clássico ou erudito na palavra, aquele que obedece a um programa, observa as regras e procura renovar. Nunca tive essa pretensão. Posso dizer que, no fundo, escrevi para mim e para os meus amigos. Foi tudo o que fiz na vida.

Excerto do livro Diário do último dinossauro, de Joel Silveira.


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