212. O poeta João Cabral me pergunta: "Você me acha neurótico?" | Fábio Campana

212. O poeta João Cabral me pergunta: “Você me acha neurótico?”

Nossa conversa já dura uma hora e João Cabral de Melo Neto ainda não tomou uma só aspirina. Estou prestes a manifestar a minha estranheza a respeito quando ele se levanta e diz que vai lá dentro buscar um copo d’água. Volta com o copo pela metade, tira do bolsinho interior do paletó um envelope, dele destaca um comprimido e engole rápido. Pergunto quantas aspirinas ele atualmente toma por dia. “Agora só de quatro em quatro horas”. Anos atrás, lembro-me bem, era de duas em duas. E houve mesmo uma época em que o poeta consumia um analgésico atrás do outro, numa espécie de compulsão, como quem mastiga amendoim.

A imbatível dorzinha de cabeça acompanhava João Cabral desde a adolescência. Dezenas de exames e radiografias tentaram inutilmente localizar e identificar o mal :

– “Minha cabeça e partes vizinhas – incluindo garganta e nariz – já foram fotografados em todos os ângulos e esmiuçados nos mínimos detalhes. Não adiantou. A dorzinha resiste bravamente à ciência e aos remédios – escondendo dos doutores o motivo por que dói. E por que dói – eu mesmo me pergunto. Creio que se trata de uma manifestação de fundo neurótico.Você me acha neurótico?”.

Não, eu não achava. Nada em João Cabral lembrava um neurótico – ou o que se entende que seja um. Era mansa a fala do poeta, os gestos parcos, atenção total ao que lhe diziam. Tudo, em suma, a compor o retrato de um homem excepcionalmente bem-educado e senhor de si. Vez por outra, um franzir da testa larga, poderosa, era indício de uma certa tensão impaciente – motivada talvez pela dorzinha que feriu mais fundo, por um ruído mais contundente ou mesmo, quem sabe, por uma pergunta mais idiota do repórter.

Excerto do livro Diário do último dinossauro, de Joel Silveira.


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