208. O dia em que Jango me falou da camisa de Vargas | Fábio Campana

208. O dia em que Jango me falou da camisa de Vargas

Quando o dr. Getúlio foi deposto, comecei a ver de perto o abandono em que o haviam deixado.

O apartamento de João Goulart tem esse jeito meio desarrumado comum a toda casa de solteiro. Ou de quem pára pouco ali. Não há cozinheira nem arrumadeira. Quem cuida de tudo e à sua maneira é o peão gaúcho, trazido lá da fronteira. Quando lá estive, manhã ainda cedo, pedi água e me apontaram para a cozinha – creio que foi o próprio Jango. Sim, foi ele.

No escritório, improvisado na sala não muito grande, uma biblioteca falha e eclética, colecionada ao acaso. Anoto os títulos de alguns livros: História dos sindicatos, as obras completas de Shakespeare (em tradução), a Mensagem presidencial de Café Filho, um Lenine – de David Shume, alguns volumes esparsos sobre legislação trabalhista, a biografia de Rui – de João Mangabeira.

– Quando o dr. Getúlio foi deposto, a minha aproximação com ele fez-se maior, mais constante. Comecei a ver de perto o abandono em que o haviam deixado. Passavam meses e meses e lá não aparecia um só amigo. Horas inteiras, calado e cismarento, o dr. Getúlio ficava estirado na rede, estendida na varanda, fumando o seu charuto, os olhos perdidos na planura que se estendia lá na frente, até a linha do horizonte. Muitas vezes o surpreendi assim, sozinho, calado. Não digo triste, apenas calado. Por onde andavam os “amigos” que ele tanto ajudara? Onde todos aqueles, centenas, que ele havia cumulado de favores, que com sua ajuda haviam se tornado ricos e poderosos? Não aparecia ninguém.

Uma pausa. João Goulart acomoda-se melhor na poltrona, estira ainda mais a perna, prossegue:

– Um fato – do qual ainda hoje me recordo – dá uma idéia precisa daquele abandono. Ao chegar à estância de Itu, surpreendi num dos quartos, sob um móvel, uma camisa suja que ali fora deixada certamente para ser lavada. No dia seguinte, viajei para Porto Alegre, onde permaneci algumas semanas. Quando voltei a visitar dr. Getúlio, e ao passar novamente pelo quarto, surpreendi a mesma camisa sob o mesmo móvel. Ninguém – dos poucos que lá apareciam – tivera o cuidado de recolhê-la e mandá-la à lavanderia. Aquilo tudo foi me enchendo de revolta, decepção, nojo. Comecei a conversar sobre política com o dr.Getúlio. Acabei virando político.

Excerto do livro Diário do último dinossauro, de Joel Silveira.


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