1. Lampião | Fábio Campana

1. Lampião

Era fim de tarde, eu conversava com Rubem Braga na cobertura (que era também granja) do seu apartamento em Ipanema e, enquanto me servia do sempre generoso uísque do anfitrião, ia matraqueando sem parar sobre os mais diversos assuntos. Braga limitava-se a ouvir, quietamente mergulhado na espaçosa rede baiana que o pintor Carybé lhe mandara de presente. Eu falava, falava, ele balouçava. Foi quando a conversa passou a ser Lagarto, a cidade da minha infância, lá em Sergipe. Inflado de incontrolável orgulho, lá para as tantas informei ao sabiá da crônica que Lampião, apesar de toda a sua proclamada valentia, jamais tivera coragem de entrar em Lagarto.
Mansamente, num demorado esforço, Braga emergiu da rede e falou:
– Quer dizer que Lampião nunca entrou em Lagarto?
– Nunca!
Braga silenciou por alguns segundos, disse em seguida:
– Pois eis aí o que se chama de um homem sensato. Afinal, que diabo Lampião ia fazer em Lagarto?
E conclusivo, antes de mergulhar na rede:
– Lagarto não é lugar para entrar, mas para sair.

Excerto do livro Diário do último dinossauro, de Joel Silveira.


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