Desconfiar é preciso | Fábio Campana

Desconfiar é preciso

Em tempos bicudos, desconfiar é preciso. A política não. Quem lida com os bastidores do poder esgueira-se no abismo entre a ciência política e o jogo bruto cotidiano.

A democracia liberal tramou uma série de desvãos em que dissimula os próprios esgares. Quem disser que política é troca de argumentos entre pessoas razoáveis guiadas pelo princípio da imparcialidade está enganado. Basta que pessoas inteligentes como John Rawls e Habermas tenham caído nessa esparrela.

Rawls apostou as suas fichas na justiça. A aplicação da lei apartaria o público do privado, o bem-comum da cobiça. Ora, pois, sexta-feira, o Tribunal de Contas aprovou por unanimidade o balanço financeiro do Paraná em 2006, apesar de parecer contrário do Ministério Público.

Habermas jurou de pés juntos que o debate resolve. No calor do enfrentamento venceria a verdade. Mas estamos no Paraná. Na boléia da bancada governista, o adesivo “Requião tem razão”. E pé no acelerador.

A fibra teórica rompe ao ser esgarçada pelo aparelhamento do estado. Os modelos ideais de justiça e debate ignoram a natureza conflituosa da política. Desconfie deles.

As máscaras precisam cair por terra. A imperfeição é característica da política, não se pode camuflá-la. Nem abrir mão dela.

Melhor a opinião da cientista política belga Chantal Mouffe, por exemplo: “A especificidade da democracia moderna reside no reconhecimento e na legitimação do conflito e na recusa de suprimi-lo pela imposição de uma ordem autoritária”. Ou: “Devemos aceitar que cada consenso existe como resultado temporário de uma hegemonia provisória, como estabilização do poder e que ele sempre acarreta alguma forma de exclusão”.

Inclua-se.


Um comentário

  1. jango
    domingo, 29 de julho de 2007 – 19:21 hs

    Invoco Câmara Cascudo falando de Rui Barbosa: “Eu o conheci em 1919, ele morreu em 21. Passando pela Faculdade de Medicina, ele foi nos visitar. Estava em campanha presidencial, competindo com Epitácio Pessoa. Alguém chegou esbaforido e avisou: “Rui Barbosa vem aí”. Não ficou um estudante na cadeira. Todo mundo arribou, inclusive os professores. A faculdade não existe mais, era na praia Vermelha, na Urca. De volta, tomamos a rua, de braços abertos, e ele teve que parar. Fez um pequeno discurso do automóvel, até hoje eu guardo um trecho na memória: “A política, senhores estudantes, é uma verminose brasileira. Inclina o carão severo e sinistro, aceita o falsete da voz insidiosa e burla as consciências, falando todos os idiomas da mentira”. Só Rui fazia isso. Efetivamente a mentira é poliglota. Só Rui dizia isso.” Quer análise mais apropriada aos dias atuais ? O grande Rui não mediu esforços para educar a nação, mas nós não temos aducação política republicana até hoje. Os analfabetos políticos de Brecht campeiam neste país e as autoridades (Tribunal de Contas, Ministério Público, Parlamentares, Gestores da res publica de plantão) sabem que não vai acontecer absolutamente nada porque não há reação da sociedade e os seus representantes estão cheios de prerrogativas, mas lhes falta o principal, autenticidade interior. Depois que assumem a função pública, esquecem que quem lhes paga é o povo e que devem gerir e controlar a aplicação do dinheiro do povo em vista do bem comum. Eles só querem saber do seu próprio bem e do seu status; são, na essência, usurpadores do poder, porque não o exercem para a sociedade. Sempre cabe ressalvar que há exceções, mas elas não mudam nada, lamentavelmente.

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