Livrai-nos dos chatos | Fábio Campana

Livrai-nos dos chatos

Ontem, aniversário de Dalton Trevisan, nosso genial fabro. Lembrei-me de uma de suas obras-primas. Aquele apelo ao Senhor que tenho vontade de entoar em voz alta, todos os dias.

“Livra-me dos chatos e Te agradecerei, oh Senhor. Rouba-me o emprego, planta-me em cada dedo a Tua unha encravada, mata-me de morte lenta e dolorosa, mas livra-me dos chatos. Há chatos demais, Senhor, nesta Tua cidade. Cobre a minha cabeça de piolhos, arranca-me os meus olhos das órbitas, Senhor, mas livra-me dos chatos”.

E pensar que ele escreveu isso quando boa parte dos chatos de hoje nem tinham nascido e se reproduzido aos milhares nesta nossa cidade.

Hoje, temos chatos de novos tipos. Mas os piores, sem dúvida, habitam a política e os seus arredores, inclusive a crônica, onde surgiu o chato fiscal dos cronistas, aquele que se corrói de pura inveja e incapaz de produzir algo que vá além da mediania, derrama sua bílis sobre os que têm talento.

Ah, os chatos. “Eles podem mais que Teu rum da Jamaica, que Teu éter sulfúrico. De Curitiba fugiram os Teus anjos, Senhor e, se fugiram, eles que eram anjos, o que será de mim?”

Há chatos demais e os mais pestilentos são aqueles que se levam à sério, que se acreditam heróis, que se alardeiam sem pecados, sem fragilidades, e fazem de seus cargos e da pompa do poder a justificação de uma existência medíocre.

Livrai-nos dos chatos que se acreditam salvadores da pátria, guardiões do templo, vestais e, principalmente, Senhor, livrai-nos da Hora do Chato, aquele programa das terças em que o chato mor discursa sobre si mesmo e se infla de soberba sob os aplausos dos parentes e dos áulicos.

E dai longa vida ao Dalton Trevisan, Senhor, pois a leitura de sua obra é um bálsamo que ajuda a esquecer os chatos desta província.


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