A volta da censura | Fábio Campana

A volta da censura

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Nos tempos do regime fardado a censura impedia que as denúncias contra o governo fossem publicadas. Pois nestes tempos de democracia, os saudosos do sistema usam da criatividade para impor a mesma violência à imprensa.

Por aqui, o governador Requião decretou que alguns jornais não podem mais circular em repartições públicas. A proibição vale, óbvio ululante, apenas para as publicações que revelam os escândalos de corrupção que corroem as entranhas do seu governo.

Fez mais. Ordenou a sua bancada na Assembléia Legislativa que não aceite qualquer pedido de informações sobre a safra de falcatruas inaugurada desde o final do mandato anterior.

Os deputados governistas obedecem. A punição para os rebeldes seria a perda de benesses e prebendas que garantem o bem estar da moçada. Na Assembléia, uma pilha de pedidos de informações foi bloqueada pela recusa da bancada governista em dar informações de interesse público.

Para justificar o seu gesto, Requião afirma que a imprensa que o critica é mal intencionada e agrega todos os adjet6ivos que lhe vêm a cabeça em seus freqüentes momentos de descontrole emocional. A fúria se volta, também, contra os jornalistas que não pautam seu trabalho pela cartilha palaciana.

A situação é simbólica de uma tradição da política nativa, a saber, a péssima relação que os donos do poder e os seus apaniguados mantêm com a moral.

Jornalistas pretendem contar a verdade. Não há donos da verdade, está certo, mas a verdade factual não é inalcançável, e o seu contrário é a mentira. Escondida, ou omitida, a verdade soçobra para sempre, o que levou Hannah Arendt a afirmar: “Não há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que acontece”.

Homens céticos talvez se inclinem a crer que dona Hannah exagera. Mas há quem não seja cético a esse ponto. O procurador Rogério Distéfano, por exemplo, é uma dessas ardorosas figuras de esperança indomável, de sorte que não hesitou em mostrar que há tanto de podre na administração da estatal Sanepar.

Valsa da ambigüidade

Que certas falcatruas na empresa de saneamento são provadas, é verdade factual, Distéfano registrou e dona Hannah, cuja aprovação é valiosa, bateria palmas. É também verdade que Distéfano, embora ameaçado, não recuou e manteve sua posição. Já outros protagonistas desta história exibiram-se na insubstituível valsa da ambigüidade. E, bailando, tangenciaram a verdade sem jamais enlaçá-la.

Os violinos celebravam como varão de Plutarco o próprio governador Requião das inconfidências que levaram a aprofundar a compreensão sobre os segredos da Sanepar, e os dançarinos negavam a boa-fé de Rogério Distéfano, ainda que a conheçam de cor e salteado, com a expectativa de que tudo morresse por ali. Não morreu.

A verdade talvez acabe por triunfar no episódio. Com isso, uma rotina seria quebrada. A rotina da arrogância e da prepotência, do oportunismo e do medo. Neste caldo de cultura, a idéia de que a política é a arte do possível virou a desculpa para os piores arreglos e o fisiologismo mais reles.

Outro biombo usado pelos alegres rapazes da banda governista é o da militância de esquerda. Ou seja, tudo o que se faz no governo estaria previamente justificado pelos fins que apontam para a emancipação do proletariado. Ora, pois, esta esquerda só consegue emancipar a si mesma e o máximo que consegue é tomar o coronel Chavez, da Venezuela, como modelo e herói.

A avaliação ponderada dos dados da realidade recomenda-se, em geral, a quem deseja sair-se bem na vida, mas há quem se sai bem sem sufocar ideais e sem ferir princípios éticos. Nas nossas emolientes latitudes, o possível virou a conveniência da minoria e o ideal se resumiu na ambição do poder pelo poder. Quanto aos valores éticos, passaram a existir na retórica dos discursos oficiais ou de tardias conversas de boteco.

Safra de falcatruas

 Não é por falta de provas e farta documentação que a Assembléia Legislativa não instala CPIS para investigar a atual safra de falcatruas. Além do imbróglio da Sanepar, a Comissão de Fiscalização da Casa recebeu a missa inteira sobre o trânsito de verbas entre a Secretaria do Trabalho e certas ONGS e OSCIPS durante a gestão do Padre Roque.
Também recebeu material pedido pelo deputado Jocelito Canto sobre a Ambiental Paraná. Trata das negociatas com massas florestais herdadas da antiga Banestado Reflorestadora.

Chega? Pois tem mais. Há indício de superfaturamento até mesmo na construção de um parque temático em Itaipulândia. E isso é apenas o começo de uma larga fila de casos que deixa a moçada da oposição de cabelo em pé.

Mas o tempo da perplexidade passou. Sobra desalento. Como sempre, neste exato instante, o Paraná é obrigado a ser mero assistente de escândalos dos mais variados calibres de um governo que prova, a cada dia, a sua incapacidade.

Perdido na tempestade, prisioneiro das suas contradições e daquelas que impôs à política nativa, o governo é também prisioneiro das lutas intestinas que o dividem, entre aqueles que dentro dele, disputam nacos do poder. Isso explica, por exemplo, o voto do governista Reinhold Stephanes Junior a favor da instalação da Comissão Especial de Investigação sobre os gastos do governo com propaganda e sua recusa a permitir que o governo ofereça informações sobre o escândalo dos aditivos na Sanepar.

Ou seja, os homens gastam tutano e massa cinzenta à procura dos mais refinados ardis para evitar que as investigações avancem e denominem os culpados que considera sob sua proteção. Enquanto isso o Paraná emborca.

Perplexidade? Um doloroso, turvo sentimento de impotência, este é o que cabe, enquanto a Assembléia não toma a iniciativa e vai fundo. Com um ânimo desses não se prepara o futuro. Que fazer? O certo, o inevitável, é que os políticos estão aí, sempre dispostos a nos punir, por nossas justas aspirações e por sua própria incompetência.

A Assembléia e o povo
 
A verdade é que Requião et caterva têm idéias bastante peculiares a respeito do Paraná que desgovernam e dos humores das massas, em geral. Para essa turma montada no poder o povo é sempre aquele, bom, paciente, ordeiro – cordial em suma. Ou muito respeitador, como gostam de dizer os que estão investidos de autoridade.

Diz um agregado palaciano que se a imprensa ficar quieta e a oposição for domesticada, tudo correrá sem tropeços e sem indagações sobre questões incomodas como a do pagamento de aditivos para empreiteiras e contratação das ONGS e OSCIPS da turma.

Tudo ficará em “segredo de Estado”, inclusive o gasto com viagens e mordomias que fazem a alegria da rapaziada que embarcou para a França e o Japão, com direito a escala na Alemanha.

Ora, pois, é por isso que passou a ser de extraordinária importância, nestes tempos bicudos, o comportamento dos tribunais, dos juízes, do ministério público. Mais importante ainda será o comportamento da Assembléia Legislativa, dos deputados estaduais recém empossados que podem mudar de vez a fisionomia da política nativa.

A Assembléia representa o povo, os cidadãos, e para não frustrá-los, o que precisa fazer agora não é muito. Basta que retome com firmeza, em nome dos seus representados, atribuições que só podem ser suas (e da justiça), em matéria financeira, fiscal, política ou administrativa.

Basta que tome a coragem de investigar todas essas denúncias de corrupção que amarguram uma sociedade inteira indignada com a notícia diária do desgoverno. Para o bem de todos e felicidade geral da Nação, é conveniente que a sociedade civil encontre agora o amparo das instituições do Estado que a representam e que foram criadas para defendê-la. Pelo menos isso.


Um comentário

  1. JOSE MATHUES
    quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 – 2:19 hs

    Não obstante das maracutaias que envolvem o poder judiciário, é a incompetência e acordos de juízes com advogados da Companhia de Saneamento do Paraná – Sanepar.
    Funcionários demitidos por justa causa desta empresa buscam junto a este egrégio tribunal, a verdade dos fatos e sua reintegração ao trabalho.
    Mas o que acontece de fato é o favorecimento de sentenças, onde o poder desta empresa impera nas malhas da justiça do trabalho, onde sentenças são dadas a revelia sem o mínimo de sensibilidade e conhecimento dos fatos.
    Advogados que prestam serviços de consultoria na Sanepar, têm parentes dentro do tribunal que influenciam as sentenças.
    Vários funcionários da Sanepar foram demitidos por justa causa nestes últimos quatro anos, por perseguição política, onde estes eram contra o governo Requianista, armações foram feitas burlando documentos onde com certeza inocentaria inúmeros funcionários.
    Mas infelizmente o que impera é o poder, engenheiros, funcionários de baixo escalão foram demitidos por mero capricho de alguns diretores puxa sacos do REQUIÃO.
    Quando em auditorias realizadas em documentos que comprovariam a inocência destes trabalhadores foram ocultados e alterados.
    Vários colegas de trabalho destes PAIS de famílias que foram demitidos injustamente foram categoricamente proibidos de ser testemunha de seus colegas, se fossem seriam punidos com a mesma intensidade, JUSTA CAUSA INVENTADA.
    Este procedimento é que alguns funcionários incompetentes da Sanepar que são nomeados por diretores para auditorias sabem muito bem fazer (JUSTA CAUSA INVENTADA) estes são doutores neste assunto.
    Por exemplo, o caso de União da Vitória ( uso do FGTS para reparação de danos em moradia), onde foi aplicada a lei somente as pessoas que tinham uma opinião formada sobre a política paranaense, e foram demitidos por JUSTA CAUSA, e o restante eram apadrinhados de diretores da Sanepar onde caiu no esquecimento e aplica-se aquele velho ditado;
    “PARA OS INIMIGOS A LEI; PARA OS AMIGOS OS FAVORES DA LEI”
    E o caso do engenheiro Marcelo Cavalcanti Fortes, este aplicou o que mandava as normas da Sanepar, mas foi demitido por justa causa porque não favoreceu um apadrinhado do Requião.
    E outro lado da moeda o engenheiro Marcos Cenovizc, demitido por justa causa comprovada e foi reintegrado na empresa após o Requião ganhar as eleições? Muito estranho. Cadê a justiça federal que não vê isto?
    E o caso do engenheiro Carlos Henrique Gobbo, demitido sumariamente após 30 anos de serviços prestados a Sanepar.
    Estas e outras aberrações de demissões fraudulentas, onde acordos com advogados da Sanepar e a justiça do trabalho, troca de juízes periodicamente para acompanhamento dos processos, substabelecimento de advogados da Sanepar para ganhar prazos usando este artifício para enganar o trabalhador.
    Acho que deve ter uma intervenção em todos os processos julgados ou não pela corte suprema da justiça, para revisão de todas as sentenças proferidas, isto seria mais digno e transparente para todos aqueles que foram injustiçados.
    MAS DUVIDO.

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