Sem graça | Fábio Campana

Sem graça

 A chacota do governador Requião em cima da Assembléia, ao prometer sortear prêmios entre os deputados que comparecerem à escolinha rendeu algumas reflexões que vão além da piada de mau gosto para desviar o foco das denúncias de corrupção.

      É em momentos como este que se pode testar a convicção democrática do manda-chuva. Derrapagens do tipo tornam evidente que instituições políticas bem equilibradas e firmes são necessárias porque os chefes de governo não podem ser sempre bons, competentes e justos.

      O Poder Legislativo é costumeiro saco de pancadas de governantes de veia autoritária. A primeira coisa que ocorre ao suserano ávido por mais poderes é retirar a autonomia, a credibilidade, a autoridade do Legislativo. Na verdade, o que ele gostaria mesmo é de fechar o Parlamento.

      Defender a Assembléia Legislativa significa defender a própria democracia. E, na verdade, a democracia não pretende garantir a escolha invariável de bons governantes; ela apenas torna os maus menos desastrosos e fornece à sociedade os meios para defender-se eficazmente deles.

      Eis aí, num estado como o nosso, o que devia bastar para fazer burgueses, operários, intelectuais, padres, políticos e até membros de seitas anacrônicas pensarem duas vezes, em vez de não pensarem nenhuma.

      Outra inapreciável vantagem da democracia é a sua capacidade de proteger o governo de si próprio e dos seus amigos mais chegados; maus conselhos, pressões indevidas, impulsos cesaristas e, até, eventuais instabilidades emocionais do chefe, tudo isso esbarra no anteparo das instituições, prende-se nas suas malhas e acaba suscitando forças contrárias que tendem a devolver algum equilíbrio à nau do Estado.


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