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Escárnio

R$ 888,7 milhões do Fundo Partidário poderão ser utilizados na campanha de 2018

Mary Zaidan

O TSE confirmou, na última quinta-feira, que os R$ 888,7 milhões do Fundo Partidário poderão ser utilizados na campanha de 2018, somando-se aos R$ 1,7 bilhão do fundo eleitoral, aprovado ano passado pelo Congresso. Mais de R$ 2,5 bilhões de dinheiro público, nomenclatura absurda para impostos, taxas e contribuições involuntárias pagas pelos brasileiros. (Os encargos são tantos que mereceram um verbete próprio na Wikipédia: Lista de Tributos do Brasil)

Talvez porque o número de zeros nos confunda depois de tantos milhares surrupiados pela corrupção, o valor estratosférico não chame tanta atenção. Mas é uma fortuna.

Convertidos em euros, só os R$ 888,7 milhões do fundo anual, ou seja, dinheiro que o Tesouro Nacional gasta todos os anos com os partidos políticos, viram € 230,3 milhões, quase quatro vezes os € 61 milhões de que os franceses dispõem para fim semelhante. Isso na França, conhecida por ser generosíssima em recursos públicos para políticos.

A insanidade brasileira ainda é acrescida por cerca de R$ 500 milhões de renúncia fiscal a título de ressarcimento das emissoras de rádio e TV que transmitem o horário eleitoral obrigatório, gratuito para os candidatos e caro para o país.

Os defensores do financiamento estatal de candidatos e partidos, que criaram os elefantes sem perguntar ao pagador de impostos se ele concordava em alimentá-los, são os mesmos que consomem outros bilhões de que o eleitor nem chega perto.

O orçamento do Congresso Nacional deste ano prevê gastos de R$ 10,5 bilhões – R$ 6,1 bilhões para a Câmara e R$ 4,4 bilhões para o Senado. Em ambas as casas, mais de 80% com gastos de pessoal.

Tudo isso para uma produção legislativa ínfima.

Análise dos dados da InteliGov feita pelo jornalista Guilherme Venaglia, de Veja, aponta que a Câmara só aprovou 2,6% dos projetos apresentados do início da legislatura até hoje. Em números absolutos, a Casa votou apenas 331 das 12.416 propostas de 2015 para cá. O maior legislador continua sendo a Presidência da República, que conseguiu emplacar 90 das 159 medidas provisórias apresentadas (56,6%).

Dinheiro a rodo que o cidadão não vê voltar. A ele é ofertado quase nada: serviços de baixíssima qualidade, descaso, penúria.

Com mais de 14% de sua população vivendo na pobreza extrema, 13 milhões de desempregados, 1,5 milhão de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola, sistema de saúde em colapso e violência em ritmo de guerra, o país não poderia se dar ao luxo de jogar tanto dinheiro fora.

Pior: fazê-lo em nome da democracia, desonrando-a ao conferir a esse estelionato legalizado por quem dele se beneficia o nome de Fundo de Financiamento da Democracia. Um escárnio que não poupa partido algum. Todos dele se lambuzam.

Se é difícil quebrar o pote de mel, o eleitor pode, pelo menos, impedir o retorno dos glutões.

Mary Zaidan é jornalista


3 comentários

  1. bs
    segunda-feira, 7 de Maio de 2018 – 20:17 hs

    Da vergonha de ser brasileiro, Em um país onde não se tem escolas e educação, não tem saúde, e não tem segurança.
    Ficamos sustentando estes verdadeiros parasitas da sociedade;
    Votar NULO, proteste, digite 99 e confirma

  2. Ein Sof
    segunda-feira, 7 de Maio de 2018 – 21:14 hs

    Não entendo.
    Financiamento público não está bom. Financiamento por empresas também não estava.
    O que esse povo quer, realmente?

    Não que eu ache que tudo esteja bem.

    Está na hora de alguém começar a reclamar, isso sim, da contratação de ‘marqueteiros’ caríssimos (contratados para enganar-nos), propagandas caras (pagas às agências), com produções caríssimas…
    Disto ninguém reclama.
    Que obrigue-se todos os políticos a voltar ao básico. Nada de gastos monumentais com um monte de coisa ‘bonitinha’ que serve apenas para engambelar os incautos.
    Todo este dinheiro é necessário por causa da estrutura que é necessária (cada vez maior) para tentar sustentar as mentiras ditas em horário eleitoral.
    E o eleitor que passe a ser mais crítico também.

  3. JÁ ERA...
    terça-feira, 8 de Maio de 2018 – 6:00 hs

    O Brasil passa realmente por uma grave crise de identidade.
    Somos sim brasileiros do bem, porem com um belo tapa olho que
    “enxerga mas não vê”. Se colocarmos estas cifras milionárias ao la-
    do das necessidades que enfrentamos chega a ser uma utopia.
    Dinheiro jogado oficialmente no lixo enquanto o povão nem comida
    e saúde tem…

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