Drogas, uma pandemia | Fábio Campana

Drogas, uma pandemia

Valdir de Córdova Bicudo

A recente intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro e a criação do Ministério da Segurança Pública pelo governo federal, em nenhum momento nominou os principais problemas que levaram a intervenção e a criação do aludido ministério: A diversidade de drogas e armas que entram e saem diariamente no território da ex-cidade maravilhosa, e sua consequente disseminação em todo o país e os malefícios causados à sociedade brasileira, independente do estrato social são inomináveis.

Apesar dos esforços evidenciados pelo Exército e polícias Federal,Civil, Militar, Rodoviária Federal e as guardas municipais na apreensão diária de drogas e armas, é comum vislumbrarmos nas esquinas de qualquer cidade dos 5.700 municípios brasileiros, adolescentes e/ou jovens acendendo um cachimbo de crack ou um cigarro de maconha.

Sem falar nas drogas sintéticas como o ecstasy, que têm seu consumo aumentado consideravelmente perante o público jovem e de classe média. Drogas que são vendidas e consumidas em casas noturnas de alta rotatividade e festas rave de maneira recôndita, como afirmou ao Jornal Zero do domingo (11/3), o diretor de investigações do Denarc do (RS), delegado Leonel Carivali. Ecstasy e LSD que deram um salto de consumo na Região Metropolitana da capital dos gaúchos, conforme a indigitada matéria.

Para compreendermos a devastadora pandemia das drogas que solapa o Brasil, é imperativo avaliar o tema sob uma ótica com perspectivas ampliada. É impossível falar sobre o tráfico de drogas e armas sem citar as nossas fronteiras. No universo da geopolítica global, o país desempenha posição de relevo na sibilina rede internacional do narcotráfico.

O Brasil tem 16.686 quilômetros de fronteiras para serem fiscalizadas. Porém, falta investimento financeiro, material humano e treinamento adequado para que o Exército e as forças policiais desenvolvam um combate efetivo aquele que é considerado o mal deste e do próximo século.

O imbróglio das armas e das drogas que adentram o território brasileiro, tem conexão direta com os países com os quais fazemos fronteiras – dentre eles, os maiores produtores de drogas do planeta. Colômbia, maior produtora de cocaína do mundo com 68 mil hectares de cultivo de coca. Peru, ocupa a segunda posição na produção de cocaína, com 59,9 mil hectares, e com previsão de ultrapassar a Colômbia em curto espaço de tempo. Bolívia, vem a seguir na terceira posição na produção mundial de cocaína, com 30,9 mil hectares de cultivo de coca. E, por derradeiro, o Paraguai, segundo produtor de maconha do planeta, só superado pelo México.

Por que os países mencionados produzem tamanha quantidade de drogas? Porque são países pobres e suas populações são na maioria de origem humilde sem qualificação – e a única forma de sobrevivência que elas encontram é o cultivo das drogas. As drogas proporcionam lucros estratosféricos aos narcotraficantes. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime ou Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), o tráfico de drogas movimenta algo próximo de 1,5 bilhões de dólares na atualidade.

Estudos desenvolvidos apontam que, parte da cocaína produzida nos países andinos cruza as fronteiras na direção do território brasileiro e, posteriormente, é enviado à Europa, América do Norte e distribuído em pontos estratégicos no Brasil. Cocaína que segundo pesquisas, teve procura acentuada nos últimos anos pela sociedade brasileira.

Num planeta globalizado e caracterizado pela fluidez das transações comerciais, o crime organizado trilha suas atividades em escala ascendente. Tanto é verdade que os EUA, detentor da maior economia e principal potência nuclear do mundo contemporâneo, gasta milhões de dólares anualmente no combate ao narcotráfico.

É sabido que os americanos possuem uma Polícia Federal de excelência para esse setor. Inclusive, construíram um muro que o separa do México, onde estão alocados parte da esquadra de narcotraficantes de alta propulsão. No entanto, as inúmeras ações desenvolvidas tem se mostrado infrutíferas para frear o avanço das drogas no seu território.

Se a principal nação do planeta não conseguiu evitar que sua fronteira seca com um único país, caso do México, que é considerado um corredor ao invés de produtor de drogas, fracassou no combate ao tráfico de drogas, que dirá o Brasil, com suas fronteiras com dimensões continentais. Enquanto a fronteira entre o México e os EUA é uma área seca e deserta, a fronteira brasileira tem a espessa Floresta Amazônica e seus mil rios, lagos e áreas pantanosas.

Quem se ater a ler o livro FRONTEIRAS ABERTAS, terá uma visão amplificada da falta de vigilância do aparelho policial nas nossas fronteiras e como as armas, drogas, munições, e demais produtos contrabandeados e a remessa ilegal de dinheiro substanciam essa enorme holding de ilegalidades.

A fragilidade das nossas fronteiras está diretamente relacionada à ampla circulação das drogas nas nossas cidades – uma triste e dura realidade com a qual convivemos diariamente e desafia a todos os segmentos a encontrar mecanismos que viabilizem um ponto de partida para minimizar o quadro vigente. Recente pesquisa da Confederação Nacional dos municípios apontou que, as drogas circulam em 98% das cidades do país – sobretudo, o crack. O Centro Brasileiro de Informações sobre drogas psicotrópicas afirma que, independente do seu conteúdo, as drogas são na atualidade uma ameaça onipresente.

Nunca é demais lembrar que tudo começou há 38 anos quando o “suprassumo” era a cola de sapateiro, que era cheirada pelas crianças de rua. À época, ninguém deu a mínima. Empurraram o problema com a “barriga”. Hoje temos uma pandemia de drogas que está destruindo paulatinamente crianças, adolescentes, jovens e recentemente atingiu a terceira idade. E, por conseguinte, esfarelando a base da sociedade na sua plenitude, que é a família.

PS: Recente matéria do site PODER 360 noticiou que, o governo federal reduziu em 54% os investimentos com o Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras). Os gastos com o sistema caíram de R$ 285,7 para R$ 132,4 milhões entre 2016 a 2017. Em 2017, o governo federal destinou R$ 449,7 milhões do Orçamento da União para a implantação do projeto. No entanto, foram desembolsados somente R$ 132,4 milhões já citados, ou seja 29% do previsto. Para 2018, os investimentos anunciados são da ordem de R$ 391,5 milhões, o que equivale a uma redução de 16% em relação ao valor previsto para o ano passado.

PS (2): Os custos elaborados à implementação do Sisfron em toda a fronteira brasileira, estão estimados em R$ 11,9 bilhões de reais. E a expectativa é de de que o projeto alcance toda a fronteira nacional até 2035.

Valdir Bicudo é investigador da Polícia Civil do Paraná.


2 comentários

  1. Espelho espelho meu
    segunda-feira, 12 de março de 2018 – 16:00 hs

    Vamos ser realistas? Já legalizamos, regulamentamos, e tributamos o tabaco, o álcool, o açúcar, o Lexotan, o Rivotril, a morfina, os opiáceos, etc. deixemos a hipocrisia de lado. É fato que nossa sociedade e todo o planeta consomem diversos tipos de drogas.

    Vamos cortar o mal pela raiz? Basta cortar o dinheiro dos narcotraficantes. Como? Descriminalizando, tributando, regulamentando e controlando a maconha, a cocaína e outras drogas. O preço irá cair, o estado irá regulamentar e irá tributar. A violência acabará.

    O traficante de fuzil na mão, é apenas a ponta do iceberg, que envolve inúmeros problemas. Há as milícias, vendendo gás, carvão, água mineral, cobrando taxa de mototaxistas, de vans…. essa é a parte do iceberg que não queremos olhar. Não queremos saber se há políticos envolvidos, conhecidos, e podemos estar até indiretamente ligados ao problema se investigarmos a fundo.

    Prender traficante é secar gelo. Seu subalterno irá ser promovido no momento em que ele for preso. Se prender todos, novos assumirão seus postos.

    O exército é necessário???? ABSOLUTAMENTE. Porém precisa ser seguido de agências de trabalho do governo, caminhão de lixo, companhia de fornecimento de água, creches, UPPs, CRAS, CREAS, agentes de saúde, Senso, cursos profissionalizantes….

    Apenas exército, é show eleitoreiro.

  2. Espelho espelho meu
    segunda-feira, 12 de março de 2018 – 16:55 hs

    Se Holanda e outros países fazem, porque não podemos?
    Vamos ser realistas? Já legalizamos, regulamentamos, e tributamos o tabaco, o álcool, o açúcar, o Lexotan, o Rivotril, a morfina, os opiáceos, etc. deixemos a hipocrisia de lado. É fato que nossa sociedade e todo o planeta consomem diversos tipos de drogas. Sim, todas as drogas podem ser receitadas e prescritas por especialistas.
    Vamos cortar o mal pela raiz? Basta cortar o dinheiro dos narcotraficantes. Como? Descriminalizando, tributando, regulamentando e controlando a maconha, a cocaína e outras drogas. O preço irá cair, o estado irá regulamentar e irá tributar. A violência acabará.
    O traficante de fuzil na mão, é apenas a ponta do iceberg, que envolve inúmeros problemas. Há as milícias, vendendo gás, carvão, água mineral, cobrando taxa de mototaxistas, de vans…. essa é a parte do iceberg que não queremos olhar. Não queremos saber se há políticos envolvidos, conhecidos, e podemos estar até indiretamente ligados ao problema se investigarmos a fundo.
    Prender traficante é secar gelo. Seu subalterno irá ser promovido no momento em que ele for preso. Se prender todos, novos assumirão seus postos.
    O exército é necessário???? ABSOLUTAMENTE. Porém precisa ser seguido de agências de trabalho do governo, caminhão de lixo, companhia de fornecimento de água, creches, UPPs, CRAS, CREAS, agentes de saúde, Senso, cursos profissionalizantes….
    Ter nas ruas, apenas exército, é show eleitoreiro, ou não espelho meu?

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