Por trás dos massacres | Fábio Campana

Por trás dos massacres

Os presídios tornaram-se feudos dos bandidos; as autoridades carcerárias, são hoje subordinadas, voluntariamente ou não, àqueles que fazem o favor de se intitular presos

Editorial, Estadão

O que está por trás dos massacres nas prisões do Amazonas e de Roraima – que chocaram o País e podem se repetir em outros Estados – é algo ainda mais ameaçador do que se poderia imaginar, como mostra reportagem do Estado publicada no domingo. Ele está expresso tanto nos altos níveis de organização e planejamento dos grupos criminosos que controlam de fato as penitenciárias como na luta que os maiores deles travam pelo predomínio no sistema e, fora dele, pelo controle do tráfico de drogas. Em outras palavras, os presídios, que deveriam ser território sob a guarda e cuidados exclusivos do Estado – até porque é para lá que são mandados aqueles que atentam contra a segurança dos cidadãos –, tornaram-se feudos dos bandidos. As autoridades carcerárias, que lá deveriam manter a ordem e a disciplina, são hoje subordinadas, voluntariamente ou não, àqueles que fazem o favor de se intitular presos. São os bandidos que mandam e as autoridades, querendo ou não, que obedecem.

De acordo com autoridades policiais e do Ministério Público que investigam o crime organizado, são 27 os grupos que agem nas prisões. Os dois principais protagonistas dessa “guerra” – o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, o maior deles, e o Comando Vermelho (CV), do Rio, que vem logo em seguida – buscam se aliar com os outros 25. Entre estes, começa a se destacar a Família do Norte (FDN), que se aliou ao CV e com ele promoveu o massacre de integrantes do PCC no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, no dia 1.º. Logo seguido, como vingança do PCC, pelo da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima.

O que está em jogo é o controle do tráfico de drogas e armas nas fronteiras com Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. Um negócio milionário, que explica a ferocidade da disputa. O assassinato pelo PCC de um importante traficante que atuava na fronteira com o Paraguai, em junho do ano passado, reforçou sua posição naquela área e provocou a ruptura com o CV, até então seu aliado, e iniciou a disputa entre os dois grupos.

Hoje o grande objetivo dos dois é o controle do tráfico na região amazônica, vizinha dos três maiores produtores de cocaína do mundo: Colômbia, Peru e Bolívia. Além da droga, a Colômbia teria se transformado também, junto com o Paraguai, em outra importante entrada de armas, vendidas por dissidentes das Farc que acabam de assinar acordo de paz com o governo de Bogotá. E nesse ponto a posição dos bandidos ligados à FDN, forte na região e aliada do CV, é decisiva na luta contra o PCC.

O sistema penitenciário continua decisivo para todos esses grupos, porque é a sua principal base de comando e planejamento – que lhes permite agir sob a proteção do Estado, ou como se o Estado fossem –, e cujo domínio é facilitado pelas condições degradantes em que vive a massa dos presos. Mas o grosso de seus negócios há muito está fora dele. Na mais lucrativa atividade criminosa, que é o tráfico de drogas, que para continuar prosperando exige a facilidade de passagem por aquelas fronteiras. Esse ponto precisa estar sempre presente para se entender a natureza e a magnitude do problema com que o País está às voltas.

Esses grupos criminosos surgiram, organizaram-se, agigantaram-se, multiplicaram-se e mudaram seu ramo de “negócios” – a ponto de se tornarem uma ameaça de altíssimo grau à segurança pública – sob as barbas das autoridades, dentro de espaços sob a responsabilidade delas. Como foi possível ninguém ter visto nada, ao longo de décadas? Ou ter fechado os olhos?

Nossos cartéis de drogas estão aí, traficando em escala cada vez maior e, no momento, travando uma cruel disputa que envolve, em combinações diversas, 27 grupos. Uma guerra de ferocidade típica do que se sabe da ação do tráfico em outros países, e na qual esse grupos desafiam abertamente o Estado, e zombam dele. A análise que faz a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo, é precisa. Nos massacres, diz ela, os presos agem abertamente, sem temor: “Eles matam e filmam como se ninguém, nenhuma autoridade estivesse ali. Eles mostram para a sociedade que não têm medo de retaliações”. Essa falta de temor mínimo do Estado é altamente preocupante.

Um desafio que não pode ficar sem resposta. E não uma resposta qualquer, para inglês ver. Mas uma forte o suficiente – e articulada pelos Três Poderes, em todos os seus níveis – para começar a repor as coisas em seus devidos lugares. E o mais rápido possível.


6 comentários

  1. VISIONÁRIO
    terça-feira, 10 de janeiro de 2017 – 11:37 hs

    Os governantes que só se preocupam com o hoje e esqueceram que os massacres são o ponto final de uma sociedade falida. Comete-se um roubo, depois vem um assassinato e depois um massacre.
    É uma corrente que nunca mais vai terminar porque se todos estes
    caras tivessem famílias decentes e estudo não estariam presos.

  2. FUI !!!
    terça-feira, 10 de janeiro de 2017 – 11:40 hs

    Concordo com o Visionário, porem o estudo só vai ter o cara que
    tiver alimentado e onde morar. Na situação atual que destino reserva
    para a grande maioria dos brasileiros que não tem as mínimas condi-
    ções básicas da dignidade humana !?

  3. Doutor Prolegômeno
    terça-feira, 10 de janeiro de 2017 – 12:02 hs

    O Estado e seus poderes com custos ultrabilionários são o problema, não a solução. No Brasil o sistema prisional sempre foi uma reprodução do sistema de galés e das masmorras medievais. Sempre foi como jogar num depósito de lixo as pessoas condenadas, fechando a porta para não serem lembradas e não incomodarem. A sociedade finge que se importa e o governo finge que administra. A mídia finge que é importante para ela, à míngua de outros assuntos de alto ibope, nessa época do ano. Uma simples debruçada em jornais antigos, por décadas, e qualquer energúmeno perceberá que pouco mudou. De tempos em tempos, um massacre para lembrar à sociedade que as prisões existem na vida real e não apenas nos filmes tipo Carandiru, para premiar diretores e produtores. As tais facções criminosas só encontraram campo para atuar nesses infernos cubiculares, porque o Estado nunca esteve presente como deveria. O resto é papo furado.

  4. Adoniran
    terça-feira, 10 de janeiro de 2017 – 12:59 hs

    Escritórios dos crime eram chamadas as penitenciárias. Hoje seria mais correto dizer Centro de Controle Administrativo e de Recursos Humanos. Os bandidos dessas facções e quem dá cobertura não podem ter comunicação entre si, ou com outrem. Precisa colocar um freio até mesmo no acesso irrestrito dos advogados a eles. Com a legislação atual os bandidos mostram-se intocáveis, com guarida constitucional. Precisam sim, ficar incomunicáveis depois do processo instruído e serem informados das decisões de forma vigiada. Depois da instrução do processo o que tanto o advogado precisa ficar falando constantemente com o preso ? Tem de haver regras. Não adianta “mi mi mi”. O que os tribunais sejam conscientes e atentos com manobras da defesa para tumultuar. E que o CNJ abra o olho e DESCONFIE de certas decisões.

  5. CARRASCO
    quarta-feira, 11 de janeiro de 2017 – 5:18 hs

    Bloqueia tudo nas prisões ou…

  6. CARRASCO
    quarta-feira, 11 de janeiro de 2017 – 6:09 hs

    Não é a superlotação que transformaram as penitenciárias em fim
    do mundo. São as comunicações entre eles que deixam à vontade
    todos os comandos das facções. Se o governo não consegue resol-
    ver é melhor soltar todos e vamos ver no que vai dar. A humanidade
    viu o seu maior legado chegar ao fim…

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