O último texto de Teresa Urban | Fábio Campana

O último texto de
Teresa Urban

Ruth Bolognese recebeu este texto de Teresa Urban, o último que ela escreveu antes falecer ontem à noite. É uma reflexão sobre os acontecimentos destes dias.Lúcida, afiada, procura mostrar à amiga o caráter do movimento que levou milhares às ruas. Ruth pediu-me que o publicasse por duas razões: que seja uma maneira de lembrar de Teresa e porque ele deve mesmo ser lido por todos para enriquecer o debate. É o que segue:

Ninguém mandou você perguntar

“Olá Ruth, estou sem falar há dez dias, não por perplexidade mas por ordens médicas. O silêncio, neste barulho todo, me obrigou a pensar mais do que agir e foi uma experiência muito nova para mim. Montar um quebra-cabeças destes é difícil, amiga, porque a primeira coisa que descobri é que nem mesmo falamos a mesma língua (hoje li em algum lugar que não tem tecla SAP para isso). Abrimos um fosso tão grande entre o que chamamos de povo brasileiro e as elites (governo, politicos, ricos, intelectuais, jornalistas, esquerdistas, nós) e agora estão em nossa frente, serpenteando pelas ruas das cidades, anunciando sua existência.”

“Bom, quanto tempo faz que a gente não se pergunta como as pessoas se sentem nas cidades massacrantes, nos ônibus entupidos, na falta de respeito de motoristas com pedestres, de motociclistas com motoristas, de professor com aluno, de aluno com professor, de jovem com velho, de velho com jovem, de meninos de rua com gente de bem, de trabalhadores endividados pelo consumo fácil, de falta de amor, de médicos gelados como pedra, de gente entediada, de tráfico, de meninos mortos na periferia, de prisões lotadas, de crimes impunes…longa lista.
Lembra, Ruth, como foi o êxodo rural dos anos 70? Perderam-se as raízes. as cidades viraram amontoados humanos de um nível crescente de hostilidade, mas a gente vai levando.

Vizinhos, comunidade, amigos, partido, Estado que protege os mais fracos??? bobajada, mano velho, vamos tocando, tem time de futebol. Tenho pensado muito em algumas palavras: pertencimento e desgarrados

Bem, deu no que deu, não somos um país, somos um monte de “eu”, cada um com seu cartaz, seu facebook e nada que os ligue.
Pode ser que um monte de eu se sinta pertencendo a alguma coisa, assim junto na rua…
A crise é de representatividade? é, mas não tão simples que uma reforma partidária resolva.
Lembrei muito de uma cena antiga, quando contestávamos a instalação da Renault nos mananciais e alguém perguntou quem representava a empresa naquela discussão. E um velhinho sem dentes, paletó de mangas curta que não conseguiam esconder os rotos punhos da camisa, levantou o braço e disse: eu represento a Renault. Nunca esqueci disso porque não entendi qual a crença que levou aquele homenzinho a fazer isso (ninguém mandou, ele estava muito sozinho ali), mas acho que foi um momento de ousadia incrivel.
Dizer eu me represento é mais ousado ainda e muito mais perigoso, Ruth. Ninguém representa ninguém naquela multidão, talvez depois, na foto no facebook, troquem suas representatividades.
Chegamos a isso por negligência e prepotência e agora é um trabalho danado de grande voltar a pensar em coisas pequenas para fazer contato com os alienígenas. Quem sabe aquele dedinho do ET de Spilberg tocando o dedo do menino ajude…

Agora, o que é mesmo ruim nesta história é o que a brava imprensa brasileira fez: criou uma nova espécie, sem nenhum estudo, nehuma base científica, sem nenhuma pergunta: homo sapiens vandalus lamentavilis. Ruth,que vergonha tenho de ser jornalista. Quem são, afinal, aqueles meninos que não temem a polícia, que devolvem as bombas, que chutam tudo com fúria, que saem das lojas saqueadas com sacolas e somem na escuridão? Quem são, quantos são, onde vivem, de onde surgiram? São brasileiros ou só são brasileiros os que serpenteiam sem rumo?

São os dentes da fera, Ruth, só os dentes. O resto, a gente não conhece.
Enquanto continuarem dividindo o país entre manifestantes e vândalos ou, como ontem na OTV, uma repórter mais perdidinha dizia, protestantes e fanáticos, não vai dar para entender o que de fato acontece.

Outro pior é a legitimização e o aplauso à repressão policial.
Não sei se você viu, mas ontem havia uma galera na frente do Palácio Iguaçu (pra Curitiba, bastante gente, umas 10 mil pessoas?) quietos, sem nada que dizer, às vezes cantavam algo tipo “sou brasileiro com muito orgulho” exigiam caras e cartazes para a câmara de TV, andavam de um lado para o outro e só, só, só. Não sei porque estavam ali. Passaram reto pela Câmara, pela Prefeitura, estavam ao lado da Assembléia Legislativa mas pararam na frente do Palácio às escuras. Ninguém para falar, nem por eles nem para eles nem com eles. Foi uma cena muito surreal, que durou tempo, debaixco de chuva e frio.
De repente, do nada, o Palácio do Governo começa a vomitar uma enfurecida tropa de choque que sai jogando bomba, atirando bala de borracha sem mais.
Joãozinho estava lá, Thiago estava lá, Dani, filha de Clovis, estava lá. E mais uma galera de meninos que só estavam lá. Pelo tanto de luz de celular, era pra mostrar depois no face. Só então, na correria do depois, que os dentes surgiram na escuridão e começaram a morder a propriedade, pública ou privada, não importava.

Bom, Rurh, quando vi aquilo – polícia, cachorros, cavalos, bombas e os meninos correndo em desespero, chutando e quebrando tudo -, depois de muito, mas muito tempo na minha vida marvada, chorei.”


20 comentários

  1. Jose Maria Correia
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 11:48 hs

    Profunda reflexão humanística sobre o adoecimento da sociedade moderna que se despede para sempre da aldeia.Verdadeiro testamento de desencanto com a falência de um modelo de país.

  2. quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 11:51 hs

    Grande texto, parabens póstumo Teresa

  3. Adriano Sica de Campos
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 11:56 hs

    …a melhor coisa que li sobre tudo Isso até agora…

  4. Alexandre Cordeiro
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 12:08 hs

    Conheci a Tereza na década de 80 quando iniciamos o processo do ordenamento físico-territorial do litoral do Paraná, com a criação do COLIT, e como participantes do meio técnico para o tombamento da Serra do Mar.
    Guerreira, com rara inteligência, firme nas posições, foi preponderante nos temas ambientais da época. E se hoje temos preservação ambiental no Paraná, ou o que resta em áreas de conservação, as digitais da Tereza estão lá, presentes.
    O último texto, percebo, escrito com as tintas do coração, emociona. As lágrimas rolam pois descreve um sentimento difuso – uma mistura de duvidas e certezas, do que está acontecendo em nosso país ,porém, a lucidez impressiona, estimula e faz o melhor, refletir.
    Valeu, Tereza.

  5. quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 12:32 hs

    Tristeza com a morte de Teresa Urban, uma guerreira em defesa do meio ambiente e da cidadania. Estivemos juntos em vários momentos e com ela aprendemos muito. Que Deus a receba bem e sua familia seja confortada pelos exemplos que Teresa deixou na terra,onde sempre foi forte,honesta e inteligente.

  6. zangado
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 12:57 hs

    Depoimento impressionante de lucidez cidadã !!!

    Vemos que os governantes e “donos do poder” ficaram escondidos e agora já começam a aparecer, diante do arrefecimento das manifestações.

    Limitaram-se a criticar os “vândalos” enquanto permanecem os mesmos bárbaros que já se preparam para perpetuarem-se nos cargos e mandatos públicos através das próximas eleições, para cuja maratona já se preparam.

    Vamos ver se a sociedade tem vergonha na cara e lembra de que com um clique consciente poderão concluir a revolução que iniciaram – quem foi não será mais !

  7. cesar - eu mesmo
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 13:14 hs

    Muita lucidez. Muita sabedoria.

  8. Rosilena Halfen
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 13:16 hs

    Clareza e lucidez excepcionais!

  9. INDIGNADOO
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 13:22 hs

    Que espetáculo de texto! que lucidez! Que indignação! Bravo para a Bolognese que partilhou o texto-legado.

  10. Flávio
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 13:44 hs

    Comentário mais sensato e esclarecedor até agora. Não merece qualquer ressalva.
    Se dilapidar o patrimônio público é ser vândalo, os centros cívicos Brasil afora concentram quase que a totalidade deles.
    REVOLTA GERA VANDALISMO

  11. Roberval Taylor Jr
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 13:48 hs

    A senhoura falecida que me desculpe, mas respeito merece mesmo o dono da banquinha de revistas do Centro Cívico que acorda todo dia às 5 da madrugada e teve um prejuízo de R$ 6 mil com a destruição dos VÂNDALOS. Merece muito mais respeito do que os “coitadinhos que chutam tudo pela frente e que saem das lojas saqueadas com sacolas e somem na escuridão”. Não, não sabemos quem são esses. Mas são covardes, e não heróis de porra nenhuma. E nem merecem respeito.

  12. quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 14:42 hs

    Exemplar. Que ela descanse em paz.

  13. Rafael Erico Kalluf Pussoli
    quinta-feira, 27 de junho de 2013 – 17:50 hs

    Que a familia receba o conforto e a homenagem de uma mulher de
    luta,que nos deixa um legado firmeza de carater e retidao de postura.Que Deus a receba no ceu e conforte seus familiares.

  14. Elizabeth Bernardi
    sexta-feira, 28 de junho de 2013 – 0:10 hs

    Teresa Urban deixa seu último texto, um legado para este momento do Brasil

  15. Camilo Prado
    sexta-feira, 28 de junho de 2013 – 7:42 hs

    Genial reflexão! Teresa sempre relevante! Ruth sempre perspicaz! Hehehe! Duas feras que tenho a honra de conhecer!

  16. Carlão Gaertner
    sexta-feira, 28 de junho de 2013 – 9:57 hs

    Até quando precisaremos chegar à beira da Morte para entender o significado da Vida. R.I.P. Teresa, você se ‘despediu’ em grande estilo e nos deixou na saudade e pensando. Valeu!!!!

  17. Gerson Mikalixen Jr
    sexta-feira, 28 de junho de 2013 – 10:11 hs

    Divino, reflexão sobre o esquecimento do “nós”. Amar só a si mesmo é simplesmente inumano. Espero que suas últimas lágrimas não sejam em vão, Teresa.

  18. Edezina de Lima Oliveira
    sexta-feira, 28 de junho de 2013 – 23:07 hs

    “…depois de muito, mas muito tempo na minha vida marvada, chorei.”

  19. FERA
    quarta-feira, 3 de julho de 2013 – 15:19 hs

    Tereza, a vontade que tenho é de ir-me ao teu encontro, largar tudo por aqui e procurar um pouco de tranquilidade. Descansa em PAZ.

  20. FERA
    quarta-feira, 3 de julho de 2013 – 15:21 hs

    Teresa, a vontade que tenho é de ir-me ao teu encontro, largar tudo por aqui e procurar um pouco de tranquilidade. Descansa em PAZ.

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