Ai, Curitiba

Há trinta e tantos anos, em outro aniversário da cidade, veio a Curitiba um inglês ilustre, grande arquiteto cujo nome já se perdeu, e que ficou por aqui alguns dias como hóspede oficial. Coube ao prefeito Jaime Lerner a honrosa tarefa de mostrar ao inglês a cidade em crescimento e sob transformação estrutural, estuante de vida e de especulação imobiliária.

Foram ver ruas exclusivas para pedestres, canaletas só para ônibus, novas avenidas, viadutos, trincheiras, dezenas e dezenas de prédios em construção, túneis, cortes, aterros, o diabo. No fim o inglês não escondia seu espanto: “É, quando ficar pronta, essa cidade vai ficar ótima.”

Hoje, se o inglês voltasse à Curitiba levaria susto ainda maior. A cidade não ficou pronta; tornou-se apenas um canteiro de obras ainda muito mais vasto, mais dinâmico, mais revolto. A população quase triplicou, as ruas precisam ser abertas e alargadas para dar fluxo ao trânsito de veículos, constrói-se a linha verde para incorporar a rodovia à malha urbana e as novas vias para acomodar á cidade as áreas dos municípios vizinhos onde Curitiba ultrapassou suas fronteiras e continuou a crescer.

Curitiba não ficou pronta, nem seria de esperar que ficasse, posto que uma cidade é um organismo vivo, e um organismo vivo deve renovar-se e refazer-se constantemente. Mas, como diziam os latinos, modus in rebus. Quando é exacerbado e estimulado pela especulação sem freios, o desenvolvimento urbano tende a tornar-se um processo autofágico, desumano e destruidor.

Dizia Mário de Andrade que o progresso também é uma fatalidade. Será? O certo é que Curitiba paga um preço alto pelo crescimento que não cuida de segurança pública como um desafio que ultrapassa a ação policial. Ou que subestima a necessidade de transporte coletivo de qualidade ao mesmo tempo que atende às expectativas de uma enorme faixa da população de obter crédito fácil e extenso para construir casas, prédios e para encher as ruas de automóveis que podem ser pagos em até noventa e nove vezes.

Há quem se ufane. Curitiba está ficando como São Paulo ou como a cidade do México. Bilu-bilu. Pensar que todo o esforço feito na época da visita daquele inglês era exatamente para evitar que a cidade se tornasse imagem e semelhança daquele caos inabitável, violento, propício à criminalidade, que é São Paulo.

O que, entre nós, torna a questão urbana especialmente dramática e urgente é um problema de modelo, não-urbanístico, mas histórico. Curitiba distinguiu-se das outras metrópoles brasileiras justamente porque seu plano urbano tem passado, tem história e os das outras não.

Enquanto São Paulo, Rio, Belo Horizonte, voltam-se para a renovação e a expansão para resolver os seus problemas, Curitiba pode se apoiar na herança acumulada, na riqueza ancestral de seu projeto urbano. Terá que frear as forças especulativas que tendem a detonar a cidade em proveito de seus interesses que vão embutidos numa idéia de progresso que é suicida. É esse tipo de progresso que produz cidades e sociedades agressivas, violentas, poluídas, em que a qualidade de vida desce ao insuportável.

Curitiba deve certamente continuar a crescer a renovar-se. Mas a condição desse progresso continuado é que não destrua o que a cidade tem de melhor, seu plano viário, seu sistema de transporte coletivo, que passam por situação crítica, mas não devem ser substituídos pela ausência de plano, de programa, de sistema.

A idéia de desenvolvimento é uma idéia fecunda, generosa e, até, inevitável. O progresso também é uma fatalidade. Nas mãos de especuladores e tecnocratas de poucas luzes, entretanto, essa idéia torna-se, como se está tornando, até obscena. Quem duvida do risco que viaje a Curitiba e a Grande Curitiba na hora do rush. Percebe-se que a cidade não tem conseguido se proteger de si mesma, da autofagia especulativa, do progressismo desaçaimado que tem sido a expressão de nossa ambição e de nosso orgulho.

Novas leis e novas posturas (por que será que o léxico associou dessa maneira as galinhas e a autoridade municipal?) e regulamentos não adiantam, a não ser que se alicercem em convicções da opinião pública. O que é preciso não é sufocar um processo, em si mesmo fecundo e renovador, mas discipliná-lo para que, como na história do jardineiro, a árvore floresça melhor e produza frutos menos envenenados, mais duradouros.


4 comentários

  1. Felipe
    Domingo, 30 de Março de 2008 – 20:48 hs

    E as mentes paravas dos jornalistas e proprietários de institutos de reputação duvidosas, ainda acreditam que o Betão é imbatível. O provincianismo tupiniquim é uma praga fecunda nas redações funcionárias.

  2. Rosalvo
    Domingo, 30 de Março de 2008 – 21:30 hs

    Campana, alguns comentários.

    “caos inabitável, violento, propício à criminalidade, que é São Paulo.”

    Você não tem acompanhado as estatísticas ultimamente, não?
    Olha, sou daqui e, na minha opinião, esse tom de superioridade que MUITA gente daqui usa quando fala com gente de fora, não se sustenta (os números sempre eles. Esse não é justamente o raciocínio do nosso desgovernador?).

    “herança acumulada, na riqueza ancestral de seu projeto urbano.”

    Ancestral? O plano diretor da cidade é tão antigo assim?

    “regulamentos não adiantam, a não ser que se alicercem em convicções da opinião pública.”

    Para um regulamento funcionar, é necessário que haja fiscalização e para ser efetivo, do jeito que estamos hoje, é preciso ser impopular. Do tipo pedágio urbano, por exemplo.
    Sinto muito, mas não tenho a MENOR confiança que é convicção da opinião pública deixar o carro em casa para usar outro meio de transporte, por piores que os congestionamentos estejam. Uma mudança desse tipo que funcione será impopular e precisa ser implantada de cima para baixo, MESMO. E com fiscalização e multa pesada para fazê-la funcionar. Veja S. Paulo por exemplo, em 10 anos os congistionamentos praticamente triplicaram de tamanho e o metrô abriu novas estações durante esse período.

    É claro que planejamento é essencial, mas a curto e médio prazo, para funcionar, o remédio deverá ser amargo.

  3. jango
    Segunda-feira, 31 de Março de 2008 – 12:38 hs

    Rosalvo:

    Endosso seu comentário. Curitiba tinha planejamento e os tempos eram outros. Depois foi ficando somente a busca de ganhar as eleições. A cidade cresceu e o planejamento urbano minguou. Curitiba não é mais exemplo, se o foi, por pouco tempo e no territorio nacional. Não fora. Isso é de menos. O remédio amargo (p. ex. pedágio urbano) os políticos não querem administrar. Os vereadores, então, nem pensar. Pouco contribuem ao tema. Vamos ao extremo: grandes cidades e até médias no mundo selecionam ruas e avenidas onde não se pode estacionar; ou ficam reservadas para bicicletas (a neve, o frio intenso, a chuva não impedem a medida), ou restritas para coletivos, ou implantam anéis de circulação rápida, etc. Planejam bairros e outros equipamentos públicos em benefício do interesse público. Nós paramos no tempo. Onde sobram políticos, faltam os planejadores da cidade. E pagamos caro todo o aparato da Prefeitura e Institutos municipais para ver o trânsito congestionar, a cidade deteriorar em qualidade de vida, o meio ambiente virar perfumaria. Estamos mal e somos uma cidade de médio porte. Iremos em direção a São Paulo ? Curitiba merece sair deste destino em homenagem ao seu passado, posto que nesta toada não terá futuro que nos dignifique como a passada “Cidade Sorriso”.

  4. Maria fuxiqueira curitibana
    Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011 – 13:29 hs

    Bom a cidade esta crescendo rapidamente ,mas com certeza ainda falta muito para sermos a tal cidade modelo,a infre estrutura aqui deixa a desejar e uma mídia encima que mostra algumas coisas já batida e ultrapassada principalmente a mente atrasada e provinciana do curitibano

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